Este estudo acompanha o card do Marco 03. Aqui começamos a tratar diretamente de Teshuvá, uma das palavras centrais de toda a caminhada até Yom Kipur.
1. O QUE ESTE MARCO QUER ENSINAR
Até aqui fizemos duas descobertas.
Primeiro: HaShem está próximo.
Depois: confiar nEle não fica apenas na ideia; Emuná começa a aparecer como fidelidade.
Agora chegamos à palavra que muda a direção da caminhada:
תְּשׁוּבָה
Teshuvá
Em português, muitas vezes traduzimos como “arrependimento”.
Mas o sentido mais direto da palavra é:
retorno.
Isso é importante.
Uma pessoa pode sentir culpa e continuar exatamente no mesmo caminho.
Teshuvá começa quando a consciência se transforma em direção.
Não basta perceber:
“Estou longe de onde deveria estar.”
É preciso começar a voltar.
2. PALAVRAS DO MARCO
Teshuvá — תְּשׁוּבָה
Retorno. No contexto espiritual, voltar-se para HaShem e corrigir a direção da vida.
Shuv — שׁוּב
“Voltar”, “retornar”. É a raiz verbal ligada à ideia de Teshuvá.
Vidui — וִדּוּי
“Confissão”. Mais adiante veremos seu lugar dentro do processo de Teshuvá. Neste Marco ainda não estamos tentando antecipar todas as etapas.
3. A TORÁ FALA EM VOLTAR
Deuteronômio 30 descreve afastamento, consequência e, depois, retorno.
Em Deuteronômio 30:2 aparece a linguagem de voltar a HaShem.
A ideia não é apenas sentir pesar pelo passado.
É mudar de direção.
Mais tarde, Rambam organiza o processo de Teshuvá em Hilchot Teshuvá 2:2 e explica que ele envolve abandonar o erro, afastá-lo do pensamento, decidir não repeti-lo, lamentar o passado e expressar verbalmente aquilo que foi reconhecido.
Não precisamos praticar tudo isso de uma vez hoje.
O primeiro passo é mais simples:
parar de caminhar na direção errada.
4. DA TRADIÇÃO JUDAICA — REISH LAKISH E O PODER DO RETORNO
Em Yoma 86b, Reish Lakish faz uma afirmação impressionante sobre Teshuvá.
Ele ensina que existe uma diferença entre retornar apenas por medo e retornar por amor.
Ao falar da Teshuvá feita por amor, a passagem apresenta uma imagem radical: até transgressões deliberadas podem ser transformadas em méritos.
Isso não significa que o erro deixa de ter sido erro.
Também não significa que consequências ou reparações desaparecem.
O ensinamento aponta para algo mais profundo:
Teshuvá pode transformar a relação da pessoa com o próprio passado.
Aquilo que antes era apenas queda pode se tornar o ponto a partir do qual ela passou a viver de outra maneira.
Em outras palavras:
HaShem não exige que você finja que nunca se desviou.
A tradição judaica leva a sério a possibilidade de realmente voltar.
Isso dá uma dimensão de esperança ao conceito.
Teshuvá não é apenas acusação.
É possibilidade de transformação.
5. VOLTAR NÃO É O MESMO QUE SE CONDENAR
Para quem está começando, essa diferença precisa ficar clara.
Teshuvá não é uma competição para descobrir quem consegue se sentir pior.
Culpa pode despertar consciência, mas culpa sozinha não corrige uma direção.
A pergunta útil é:
“O que precisa mudar agora?”
Por isso o Marco pede apenas um passo concreto.
Não é necessário produzir hoje uma lista interminável de falhas.
A caminhada ainda terá um momento próprio para exame mais profundo.
Hoje o objetivo é escolher uma direção.
6. PARA QUEM ESTÁ CHEGANDO AGORA
Se você é cristão e está acompanhando esta preparação, talvez a palavra “arrependimento” seja muito familiar.
Aqui vale aprender uma nuance judaica importante:
Teshuvá é retorno, não apenas remorso.
Você não precisa adotar todas as práticas judaicas de penitência ou confissão para compreender esse princípio.
Pode começar perguntando honestamente:
“Em que área eu sei que estou caminhando de um jeito que preciso corrigir?”
E depois:
“Qual é o primeiro passo possível na direção contrária?”
Isso já permite participar da proposta deste Marco sem fingir uma identidade religiosa que não é a sua.
7. DÚVIDAS COMUNS
Teshuvá significa sentir culpa?
Não. Culpa pode fazer parte da percepção do erro, mas Teshuvá exige movimento. O centro é retorno e mudança de direção.
Preciso contar meus erros para outra pessoa?
Nem todo erro precisa ser narrado para terceiros. Quando houver dano contra outra pessoa, reparação e pedido de perdão terão lugar próprio mais adiante. Este Marco pede primeiro honestidade diante de HaShem e mudança concreta.
E se eu já tentei mudar antes e falhei?
Isso não impede uma nova Teshuvá. O fato de uma tentativa anterior não ter sido perfeita não transforma o retorno em algo inútil.
Preciso prometer que nunca mais vou errar?
Não faça promessas grandiosas só para produzir emoção. Escolha uma mudança real e responsável. A Teshuvá séria é mais importante do que declarações impossíveis de sustentar.
Isso já me prepara para o jejum?
Sim, mas indiretamente. O objetivo é chegar a Yom Kipur entendendo que o jejum não substitui mudança de vida. Primeiro aprendemos a voltar.
8. PARA VIVER ESTE MARCO
Escolha uma área concreta.
Pode ser:
- uma palavra que você precisa parar de repetir;
- uma atitude que machuca alguém;
- uma responsabilidade que está sendo negligenciada;
- um hábito que precisa diminuir;
- uma prática boa que precisa ser retomada.
Agora escreva duas frases:
“A direção em que estou indo é...”
“O primeiro passo de retorno será...”
Depois faça esse primeiro passo hoje.
Não espere sentir-se completamente preparado.
Teshuvá começa quando a intenção ganha movimento.
9. UMA PERGUNTA PARA LEVAR CONSIGO
Se eu realmente acredito que voltar é possível, qual desculpa eu preciso parar de usar para continuar no mesmo lugar?
Leve essa pergunta até o próximo Marco.
10. PONTE PARA LEITORES CRISTÃOS
Esta seção não define Teshuvá para o Judaísmo. Ela oferece apenas uma imagem familiar da Brit Chadashá para quem vem do cristianismo.
Na parábola de Lucas 15, o filho que havia se afastado chega a uma decisão concreta:
“Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai...”
Lucas 15:18 · ACF
A conexão com este Marco é muito simples.
Ele não fica apenas pensando que se afastou.
Ele se levanta e começa a voltar.
É essa imagem de movimento que interessa aqui.
Não usamos a parábola para definir a halachá ou o conceito judaico de Teshuvá. Ela funciona apenas como uma ponte familiar para o leitor cristão perceber a diferença entre remorso e retorno.
11. REFERÊNCIAS PARA CONFERÊNCIA
- Deuteronômio 30:1–3
- Isaías 55:7
- Rambam · Mishneh Torah, Hilchot Teshuvá 2:2
- Talmud Bavli · Yoma 86b · ensinamentos de Reish Lakish sobre Teshuvá
- Lucas 15:18 · ACF · ponte para leitores cristãos
- Calendário: 15 Elul 5786 · 28/08/2026
PARA O PRÓXIMO MARCO
Agora sabemos que é possível mudar a direção.
O próximo passo será olhar para o próprio caminho com verdade:
Cheshbon HaNefesh — balanço da alma.
Marcelo Trindade
@marcelositr
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